terça-feira, 20 de abril de 2010

Natal e Mudas de Alface


Bom, quero agradecer em primeiro lugar este ensinamento que o texto abaixo (na íntegra) de um e-mail que recebi do meu afilhado Marcos Aurélio Monaro.

O texto não é meu, é do Pe. Fabio de Melo, mas lendo-o me fez lembrar dos natais que passava quando criança e como aquilo tudo era muito importante para mim... A minha familia se reunia na casa de meus avós maternos e como criança, via tudo com olhos inocentes que brilhavam como as bolas ( de vidro) das árvores de natal e canticos natalinos, principalmente a música da turma da Mônica.."... Feliz natal para todos, feliz natal..." barulhos de presentes, minha tia Dita que brigava com a gente por brincar no chão recém encerado....


Bem vamos ao texto.



Fabio de Melo nos mostra neste conto, um ensinamento de sua mãe numa manhã enquanto plantava mudas de alface no canteiro. Sua mãe refere-se à metáfora em que Deus nos tira do lugar errado e coloca no certo. Se deixar as mudas na caixa, irão morrer.
quem tiver um tempo, imagino que não será perdido. Não levará mais do que 5 minutos de leitura.. mesmo não tendo feito nenhum curso de leitura dinâmica.....
abçs..
Natais e mudas de alface
A manhã chuvosa parecia costurada nos embaraços de uma noite mal dormida. O vulto de mulher prateado pelos raios de um sol recém nascido recolhia do tempo as agruras de saber-se temporário, imperfeito, afeito aos desajustes de um amor que adormeceu, mas que não desaprendera de amanhecer.
Era um corpo de dor, de menstruadas esperanças, de saudades e partos. Corpo de mãe, corpo de cumprir oficio de curar joelhos esfolados, de dar banhos que tinham o poder de lavar corpos e almas num mesmo acontecimento. Corpo de amamentar filhos que crescem.
Aquela mulher e aquelas manhãs de dezembro. As recordações de seu tempo de menina, pobreza reconhecida, trazida na cara e denunciada pela moldura de olhos que não sabiam mentir.
O plantio programado, compromisso que nem mesmo a dor acontecida nas recentes horas poderia adiar, tinha ares de ritual religioso. A sementeira ao lado, moldada numa caixa de papelão resistente, sobre o canteiro que nasceu de suas mãos pequenas, esperava pela oportunidade de cumprir no tempo o destino de dar continuidade à obra da criação.
Morrer e viver são atos que se conjugam sem pressa. A mulher sabia de tudo isso. As mudas miúdas também. Dotadas de sabedoria vegetal, cresciam ao seu tempo com a mesma simplicidade que é própria de quem não procura outro destino senão o seu.
Aquela mulher sabia mais. As mudas não mudam. São sempre as mesmas desde o tempo de sua mãe. Oficio aprendido que se estende no tempo, feito consumação de uma despedida que se cumpre aos poucos, bem aos poucos.
Mudas de alface estão carregadas de sentido. Nelas, prepara-se o futuro que afugenta a fome, traz vibrações ao modo de carecer. Recordo-me com saudade. O tempo era de chuvas. Jabuticabeiras explodiam. Pequenos frutos pendurados em seu corpo de árvore-mãe, tal qual a minha mãe e seus meninos pendurados na cintura, entrelaçados nas pernas e puxando seus braços.
Dezembro tinha cores e histórias diferentes. Vitrines iluminadas, cartões de ocasião sendo preparados pela minha irmã, para que mesmo com simplicidade pudéssemos desejar votos de felicidades.
Presépio sendo retirado da caixa, árvores coloridas de bolas vermelhas, anunciando que nossa pobreza seria ainda mais exposta. Mas não havia problema. Nossa árvore, mesmo tão pobre, já era nossa alegria. As jabuticabeiras nos curavam de tudo...
Minha mãe e sua capacidade de replantar o mundo a partir de mudas de alface era o símbolo mais vivo de nosso Natal. Com seu jeito simples e hábitos rotineiros, ela condensava todas as virtudes que o acontecimento nos sugeria. "O menino Jesus é quem merece presente neste dia!", ensinava-nos como se quisesse modificar a ordem do mundo. E assim acreditávamos.
Nossos presentes eram poucos. Quase nenhum. Só mesmo para não passar em branco, mas o mais importante nós não deixávamos de receber. O sorriso farto, a oração em família, a missa do galo e o nosso Natal já estava completo.
Aquela mulher nos fazia esquecer o que não tínhamos. Transplantava-nos, como fazia com as mudas de alface. Deixávamos o chão estreito da sementeira e caiamos com nossas raízes nos canteiros fartos da simplicidade que ela sabia construir.
E assim era o nosso Natal.

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