A baixo copiei um texto do Luis Fernando Veríssimo que descreve a nostalgia e o envelhecimento do corpo e da alma. Antes quero esclarecer que sempre fui nostálgico.
Sempre gostei de coisas antigas, histórias do passado e tudo mais, me imaginava viver nos anos 20, anos 30, anos que meus avós eram jovens, onde não existia computadores e internet, onde as horas duravam mais do que 60 minutos.
Eram anos difíceis para eles (meus avós), mas são coisas da época.
A minha melhor fase foi nos anos 80, mas acredito que a fase da infância e adolescência foi a mais importante para todos...
Nos anos 80, os filmes, as músicas, as bandas eram sensacionais, o rock nacional o surgimento de bandas como Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, Blitz, Paralamas do Sucesso, Titãs, Gang 90, Leo Jaime entre outros e a mais fantástica banda nacional na minha opinião Legião Urbana.
Hoje me vejo vivendo nos anos 10 e lembrando dos anos passados e de certa forma me lembrando da vida como era, na escola, no futebol, no campo do Guarani em Suzano, no Raul Brasil, no Marques Figueira e muito mais....
Há de se lembrar também dos tropeços cometidos por falta de experiência, as desilusões, as paixões antigas, as aulas de matemática que me aterrorizava em 1979 e que minha querida mamãe ficava a luz de velas ensinando fazer contas de dividir...etc...
Hoje uso a internet para tentar resgatar amigos antigos, memórias passadas...
Mas vamos ao texto do Luis Fernando Veríssimo " Nostalgia" tirado da revista Veja em 2 de dezembro de 1987.
Luis Fernando Veríssimo
Nostalgia
Ah, os anos 60...
Eu com dor-de-cotovelo ( e muito mais cabelo) ouvindo a Cely Campello tomando uma Cuba com gelo e pensando como eram bons os anos 50 quando se tinha a lembrança distinta de que bons mesmos foram os anos 40 embora menos claro, que os anos 30.
Hoje não consigo pensar assim por mais que tente.
Ah, eu era muito mais nostálgico antigamente...
Sair por aí garimpando a memória, pisando em neurônios e paixões adormecidas, atrás da velhas gírias só para mostrar aos jovens de agora que fui como eles, um bobalhão? Comigo não violão!
Mas a nostalgia, que consiste em lembrarmos como fomos ridículos um dia, tem uma atração irresistível. De tanto voltar ao passado a minha alma, que nunca se conformou em ter que envelhecer junto com o corpo e sempre insistia em ver o contrato onde isto estava escrito, acabou se dando mal. No outro dia encontrei um bilhete dela colado no espelho. " - Socorro! Estou prisioneira dos anos 50!" Tive que ir socorrê-la. Como se tratava de uma viagem imaginária, me vi nos anos 50 da imaginação, que é me Technicolor e tem trilha sonora do Max Steiner. Não compartilho do saudosismo radical do meu espírito, mas concordo com algumas das suas queixas, como por exemplo, a de que não fazem mais filmes com eurasianas. Também não fazem mais filmes de pirata. E quando foi a última vez que alguém rolou por uma escada no cinema? Antigamente as pessoas viviam rolando escada abaixo, e perdiam o filho. Era ótimo. Mas adivinhei que a minha alma estaria atrás de uma eurasiana e entrei direto em Suplício de uma Saudade, com Jennifer Jones e Willian Holden, o filme mais anos 50 que existe. Minha alma não estava lá, no entanto. Procurei-a na boate Vogue, do Rio, antes do incêndio. Nada. Cheguei a passar correndo pela Rádio Nacional durante o programa do César de Alencar, para espanto do auditório. Mas minha alma não estava. Procurei até numa chanchada da Atlântida, com medo de que o José Lewgoy a tivesse sequestrado. Nada. Já estava desistindo, e pronto para voltar sem alma a 1987, quando ouvi vozes familiares. Os Platters cantando Only You . Mas havia algo diferente no som, algo destoante. Fui investigar e lá estava eu, em espírito, cantando junto com eles.
Era o quinto Platter. Arranquei meu espírito do palco e o trouxe, esperneando, para a era Sarney. Ele tinha mudado a idéia, não queria mais ser salvo. Acho que o compreendo.
O Barão assim narrado que chora o Tejo abandonado e o velho que trocou por nada a juventude transviada estão no mesmo barco "Saudade"
Mudam os tempos mas o exílio é igual.
Outros mares, outro Carnaval.
O que fazer? É a idade.
Nunca mais gordura ou farináceo
ou uou, uou, uou Diana a última flor, inculta e bela, do Art-Palácio.
Camões, Let´s twist again.
Fonte: Revista Veja, 02 de dezembro de 1987
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